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Estou cansado. Estamos todos cansados. Disseram-nos que éramos livres. Que treta. Não somos nada livres. Somos freelancers da nossa própria exploração. Antes havia o “não podes”; agora há o “tu consegues”. É pior ainda. Antes havia o chefe, o pai autoritário, o Estado ditador, a figura clara do opressor; hoje somos o nosso próprio opressor. Não preciso de polícia quando tenho um “eu” a vigiar-me 24 horas por dia. Sou o patrão e o escravo, o capataz e o chicoteado, a empresa e o recurso humano descartável. Acordo de manhã e já estou em compliance com a minha própria tortura. "Tu podes tudo” significa “tens de tudo fazer, o tempo todo, sem falhar”. Quando falhas, a culpa é tua: não estudaste o suficiente, não te organizaste o suficiente, não te superaste o suficiente, não foste bom o suficiente. Ninguém aguenta o entusiasmo obrigatório. Vem o burnout, a ansiedade, a depressão, uma angústia que escondemos por vergonha de nós mesmos. Não é o “não podes” que nos mata; é o “podias ter feito mais”. Ninguém sabe descansar. É patológico. Somos reféns das frases feitas: “realiza-te”, “investe em ti”, “sê a tua melhor versão”. Estou cansado. Estamos todos cansados. A nova forma de escravatura chama-se “projeto pessoal”. Não quero ser um projecto. Não quero. Não quero render mais, não quero transformar cada minuto em oportunidade. Quero o direito simples, humano, profundo, de falhar, de ser, de continuar, de não ambicionar. Estamos todos demasiado preocupados com o mindset quando devíamos era fazer todos mais mindnaps. Eu vou agora para a minha. Com licença. _ O HOSPITAL DE ALFACES Disponível em todos os hipermercados e livrarias
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